Commander (2013 Edition)

Sumário

O Presente Perfeito

A cúpula dourada do grande salão de baile do Conde Bartolotti era famosa por suas propriedades acústicas perfeitas. Sob ela, dançavam e rodopiavam dezenas de membros da baixa nobreza da Cidade Alta. Para aqueles nas margens da aristocracia, a Gala de Primavera do Conde era o evento do ano — um lugar onde alianças eram feitas e desfeitas, negócios selados, casamentos e casos arranjados, e a fofoca fluía ainda mais livremente que o vinho.

Mas em meio a todos os alegres foliões, o Lorde Zangari fervilhava, bebia e se enfurecia.

Como ela ousa?!

O casamento de Zangari nunca fora feliz, mas agora a visão de sua adorável esposa saltitando entre a elite da cidade, fofocando e sorrindo, fazia seus punhos cerrarem-se de raiva. Segundo a Lady Tirelli, sua esposa Aribelle estava contando a quem quisesse ouvir sobre o mais recente infortúnio ocorrido nos negócios do Lorde Zangari. Enquanto a orquestra iniciava uma valsa suave, Aribelle ergueu uma sobrancelha para ele do outro lado do salão lotado. Ele quase cuspiu. Não, ele não dançaria com sua esposa naquela noite.

À medida que a noite avançava, Zangari mantinha o mínimo de interações sociais polidas. Ele encontrava um pouco de consolo em conversas triviais — conseguia flertar, sorrir e vangloriar-se durante a noite com um charme praticado. Certificou-se de não ser o primeiro a sair, mas assim que a multidão começou a ralear minimamente, dirigiu-se às portas. Todos que notaram sabiam que era melhor não comentar que ele e sua esposa partiram separadamente, e suas carruagens os levaram noite adentro em direções diferentes.

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Zangari mantinha um apartamento confortavelmente mobiliado na extremidade leste da cidade. Se alguém perguntasse, diriam que ele frequentemente precisava passar a noite mais perto de seus negócios — mas era um segredo aberto que o apartamento era um segundo lar para ele e sua amante. Iolanni era viúva aos vinte e cinco anos, e as circunstâncias suspeitas em torno da morte de seu falecido marido deixaram-na com uma reputação perigosa e uma escassez de oportunidades para se casar novamente, enquanto a morte em si lhe deixara uma riqueza equivalente a várias vidas.

"Não serve, Meu Querido", disse Iolanni. "Tanta raiva é deselegante." Ela relaxava na poltrona, sob as cortinas de veludo vermelho sempre fechadas.

"Ela faz de tudo para destruir minha reputação! A harpia não sabe que, se eu for arruinado, a sorte dela não será melhor que a minha? Juro, a única alegria dela é a minha miséria." Zangari andava de um lado para o outro na sala.

"Há uma certa ironia no fato de que a mulher que o afasta do leito de sua esposa tenha que ser aquela a lembrá-lo de que você pode não ser o exemplo perfeito de marido." Ela enrolava distraidamente seu cabelo preto como a noite e bebericava seu vinho.

"Às vezes você não é melhor que ela."

"Oh, frequentemente sou pior." O sorriso dela aumentou. "Mas falo sério — isso simplesmente não serve. Eu esperava que com o tempo você fosse capaz de deixar tudo isso de lado. A raiva ou destrói um homem ou o leva a fazer coisas terríveis. Frequentemente ambos. Então a pergunta que você deveria estar se fazendo é: qual dos dois vai ser?"

Zangari parou de caminhar. "Não estou acompanhando."

Iolanni inclinou-se para frente. "Há uma mulher chamada Sydri. Uma artífice de extrema habilidade. E ela se especializa em soluções personalizadas para os problemas dos ricos."

Zangari desdenhou. "Não vou me colocar nas mãos da Rosa Negra!"

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"Por acaso, esta Sydri é completamente independente. E permita-me dizer quão interessante é que sua primeira ressalva seja política, não moral. Tenho boas garantias de que o trabalho dela é tão irrastreável quanto eficaz. Acho que você deveria fazer-lhe uma visita."

O rosto de Zangari acalmou-se, e ele pensou por um longo momento. "Assassinato? Você era amiga dela, não era? Você me sugeriria isso?"

"Por muitos anos, sim. Mas enquanto eu faço a sugestão, você é quem a está considerando. O homem que se casou com ela? Dificilmente creio ser a vilã neste pequeno exercício mental."

Zangari sentou-se ao lado de sua amante e apoiou a cabeça nas mãos. "Não, talvez não. Preciso pensar sobre isso."

"Sim", disse Iolanni, "mas talvez não hoje à noite."

Ela apagou a luz. No momento em que seus olhos se ajustaram à escuridão, Lorde Zangari já havia tomado sua decisão.

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Houve uma pequena resistência inesperada quando Zangari abriu a porta da loja da artífice. O empurrar da porta girou um conjunto de engrenagens que fez o salão de exposição ganhar vida. Marionetes rodopiavam, um pequeno cão mecânico balançava o rabo e uma variedade de dispositivos complexos começou a se mover e girar. A voz de uma mulher, baixa e vagamente irritada, veio de uma sala nos fundos.

"Estarei com você em um momento. Não toque em nada que esteja brilhando."

Zangari tirou um momento para absorver a sala. Havia quatro prateleiras em cada uma das três paredes, e cada uma delas estava repleta de vários brinquedos, bugigangas, engenhocas e autômatos. À primeira vista, a sala parecia quase agressivamente festiva, mas quando olhou mais de perto, Zangari percebeu que os dentes do cão mecânico eram afiados como navalhas e as marionetes tinham um brilho quase inteligente em seus olhos vítreos. Ele não tocou em nada.

Uma mulher emergiu da sala dos fundos. Zangari achou-a bastante jovem a princípio, mas quando encontrou seus olhos, percebeu que não tinha ideia da idade dela. Era bonita, pensou ele, mesmo que não fizesse esforço algum para isso. Deixou o pensamento pairar por um momento.

"Bem-vindo à minha oficina. Sou Sydri. No que posso ajudá-lo hoje? Algo para impressionar os convidados? Um presente, talvez?"

Zangari sorriu. "Sim, um presente. Um presente de grande impacto. Um que deixará uma impressão duradoura, se você entende o que quero dizer." Ele sorriu com sarcasmo, bastante satisfeito com sua insinuação, mas se a mulher entendeu, não deu sinal.

"Bem, basta olhar ao redor. Você não encontrará trabalho melhor em toda a Cidade Alta, e meus materiais e encantamentos são insuperáveis. Apenas me diga o que atrai seu olhar."

Zangari franziu a testa. "Não, não. Estas peças são adoráveis e tudo mais, mas acho que posso precisar de algo sob medida. Algo especial. O último presente que terei necessidade de dar à minha esposa."

Sydri colocou a mão sobre o balcão e encarou Zangari fixamente. "Posso fazer qualquer coisa que você quiser. Qualquer coisa. Mas você não vai se esquivar disso com rodeios. Se quer que eu faça isso, então você precisa dizer as palavras."

Zangari sentiu um nó na garganta e engoliu seco. "Eu... preciso de algo que me ajude a matar minha esposa." Sua voz soou muito fina.

O rosto de Sydri suavizou-se em um leve sorriso. "Isso não foi tão difícil, não foi? Um veneno entregue discretamente é o mais fácil e indolor, mas posso realizar encantamentos letais de diversas maneiras. Falência hepática, insanidade, ataque cardíaco..."

"Ataque cardíaco. Por toda a dor que ela causou ao meu coração, é apenas apropriado." A bravata de Zangari retornava lentamente. "Ela adora caixinhas de música. Provavelmente gastou vinte mil coroas em sua coleção estúpida — lixo espalhafatoso, a maior parte."

Sydri assentiu e começou a murmurar, principalmente para si mesma. "Um amuleto de trama psico-auditiva, fácil o suficiente, em camadas lentas, sintonizado com a energia de uma pessoa específica... tempo e materiais... design personalizado..." Ela rabiscou algumas notas em um pedaço de papel, depois olhou para cima. "Cento e cinquenta mil."

Zangari quase engasgou. "O quê? Isso é quase tudo o que eu.... Isso é loucura!"

Os olhos de Sydri estreitaram-se. "Se quisesse, você poderia levar uma bolsa de moedas a alguma taverna imunda e encontrar um mercenário para fazer o serviço. Mas não é isso que você quer. Você quer fazer isso com estilo, quer que seja certeiro e quer ter a confiança de que isso nunca, jamais, voltará para você. Esse é o meu acordo, e você o aceitará. Volte com uma mecha do cabelo dela, sua caixinha de música favorita e metade do dinheiro. Obrigada pela preferência, milorde."

Zangari buscou uma retaliação irritada, mas não encontrou nenhuma. Ele lançou um olhar fulminante, assentiu e saiu.

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Três dias depois, Zangari retornou. Ao cruzar a porta, um aracnídeo mecânico com o abdômen brilhante desceu em frente ao seu rosto por um fio de prata. Ele ficou hipnotizado por um momento, mais curioso que assustado, enquanto seus oito olhos de joia pareciam olhar profundamente nos seus.

"Sentinela quatro, desativar e retrair!" As pernas da aranha dobraram-se ao redor de seu corpo e ela deslizou de volta pelo fio. "Desculpe por isso; dispositivo de segurança. Bastante versátil. Enfim. Vejo que trouxe o que pedi."

A cabeça de Zangari parecia nublada, e ele forçou-se a focar. "Sim. Sim. A caixinha de música, uma mecha de cabelo e o dinheiro. Pegue." Ele colocou uma mochila pesada sobre o balcão com um tilintar inconfundível.

Sydri espiou o interior e retirou a caixinha de música e uma pequena bolsa de veludo. "Precisarei examinar estes. Levará apenas alguns minutos."

Sydri levou os itens de volta para sua oficina, deixando Zangari sozinho na frente da loja. Ele olhou ao redor enquanto Sydri trabalhava. Seus olhos pousaram em um broche com um fecho de arame intrincado, de ouro e prata, com um emblema de cabeça de javali.

"Eu não vi isto antes, vi? O broche?"

"O quê?"

"O broche de cabeça de javali. É muito bonito. Sabia que o brasão da minha família apresenta uma cabeça de javali? O animal mais perigoso da floresta, dizem. O mais forte, também. Um símbolo de resiliência e determinação."

"Não está à venda." Sydri emergiu da sala dos fundos. "Desculpe. É uma encomenda personalizada para outro cliente. Os materiais que você trouxe são bons. Precisarei de duas semanas para terminar o trabalho; traga a outra metade do pagamento quando retornar. Tenha uma boa noite."

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Quando Zangari veio à loja de Sydri pela terceira vez, todos os seus trabalhos em exposição haviam sido embalados em pequenos caixotes — as paredes estavam completamente vazias.

"Bom, você é o último. A caixinha de música está terminada."

"O que está acontecendo aqui? Você está fechando o negócio?"

"Não, mas eu o mudo de lugar de tempos em tempos. As razões devem ser óbvias o bastante. Agora, antes de lhe entregar a caixinha de música, quero explicar como funciona. Escute com atenção. Tecí um encantamento na própria melodia — a primeira vez que ela a ouvir, desenvolverá uma leve fascinação pela canção. Esse é o amuleto de sintonização funcionando. Na segunda vez que ouvir, isso desencadeará um estado de introspecção calma. Se ela for como a maioria das pessoas, sentirá uma leve compulsão para resolver quaisquer pendências em sua vida, cuidar de negócios inacabados, esse tipo de coisa. Também a deixará sentindo-se calma e relaxada. Na terceira vez que ouvir a caixinha de música, os harmônicos ressonantes desencadearão uma reação neurofísica em cascata. O coração dela parará, e será isso. O encantamento se destruirá nesse ponto também. Ela voltará a ser apenas uma caixinha de música perfeitamente adorável. Completamente irrastreável."

Zangari estava impressionado. "Você certamente fez jus à sua reputação, Senhorita. Assumindo que funcione como descreveu."

"Funcionará. Mas esta é sua última chance de voltar atrás. Honestamente, a maioria volta, mesmo os que chegam até aqui. Devolverei metade do seu adiantamento e você poderá sair por aquela porta. Nunca direi uma palavra e você, mais importante, não será um assassino."

O rosto de Zangari corou. "Está me chamando de covarde? A única coisa com que você precisa se preocupar é que isto funcione como prometeu, porque se não funcionar, juro que a arruinarei. Você me ouviu? Agora me dê a droga da caixa!" Ele bateu com uma bolsa pesada de moedas sobre o balcão.

Sydri olhou para ele, com uma expressão intrigante no rosto, depois desapareceu na sala dos fundos. Ela emergiu com duas caixas de presente forradas de cetim, uma menor que a outra.

"Aqui está. Peço desculpas se o ofendi, mas eu precisava ter certeza. A caixa menor é para você — meu outro cliente nunca veio buscar o broche. Os materiais para a caixinha de música foram mais baratos do que eu antecipara, então imagino que isto compense a diferença."

Zangari lutou para manter um sorriso ganancioso fora do rosto enquanto agarrava as caixas e partia.

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Os músicos já haviam começado a tocar no andar de baixo quando Zangari terminou de se vestir. A ocasião era a gala de aniversário de sua esposa, e ele não se importava em estar um pouco atrasado. Depois que terminasse, ele entregaria a ela a caixinha de música e, alguns dias depois, sua nova vida poderia começar.

Ele olhou para si mesmo no espelho e viu um homem completamente no controle de seu mundo. Colocou uma capa leve sobre os ombros — era um bom peso para o verão, mas sempre fora um pouco estreita para ele. Após ajustá-la inutilmente por alguns segundos, percebeu que seu novo broche a prenderia perfeitamente.

Ele o retirou cautelosamente da caixa de presente, tomando cuidado para não danificar o delicado trabalho de arame. Abriu o fecho e o prendeu na capa. Houve um breve lampejo de dor.

Ele picara o polegar no broche e, por alguma razão, achou isso hilário. Riu mais alto e com mais entusiasmo do que ria há anos, com uma alegria pura prechendo seu coração. Sentiu-se um pouco tonto e sentou-se na cama. Sua cabeça girou um pouco, e ele caiu de costas na cama. Isso também pareceu incrivelmente engraçado.

Zangari encarou o teto branco de seu quarto e seu riso diminuiu. Talvez descansasse um pouco antes de descer. A cama era confortável e ele estava feliz ali. Mas ao fechar os olhos, perguntou-se por que estava sentindo tanto frio em uma noite de verão tão quente.